Aranha-lobo vs Armadeira
As aranhas compõem um grupo de animais extremamente diverso, com centenas de milhões de anos de história evolutiva. Desde o seu surgimento, há cerca de 350 milhões de anos, elas variaram em tamanho, cor, forma e comportamento, adaptando-se a todos os hábitats e se espalhando por quase todos os ambientes terrestres, totalizando mais de 30 mil espécies em todo o mundo1. O Brasil é o país neotropical com maior diversidade, com mais de 3 mil espécies conhecidas2.
Apesar do medo que as pessoas desenvolveram por esses animais, a maioria é discreta e evita contato com humanos, passando grande parte do tempo desempenhando o seu papel silencioso na natureza. As aranhas são importantes predadoras em todos os ecossistemas que habitam, com grande capacidade de encontrar e de consumir um número maior de presas do que qualquer outro predador. Embora se alimentem principalmente de insetos, as espécies maiores também podem se alimentar de pequenos ratos, morcegos, peixes, caranguejos, rãs, lagartos, cobras e escorpiões, e são alimento para muitas aves e vespas. Assim, as aranhas ajudam a manter o equilíbrio biótico da natureza 1.
Apesar de as aranhas serem chamadas de modo generalizado de “perigosas” essa ideia não corresponde à realidade. A maioria das espécies não oferece risco significativo aos seres humanos, sendo que apenas uma parcela muito pequena possui veneno capaz de causar reações graves em pessoas 3 4. Portanto, as aranhas não perigosas são a maioria e, embora quase todas tenham veneno — uma ferramenta muito importante para sua alimentação, permite imobilizar presas pequenas, como insetos, geralmente sendo fraco demais para afetar humanos. Além disso, muitas espécies sequer conseguem perfurar a pele humana com suas quelíceras. A maioria das aranhas evitam o contato e só mordem em situações extremas, como quando são pressionadas contra o corpo5.

As consideradas perigosas para humanos são bem específicas como a aranha-marrom , as viúvas-negras (e em menor grau as viúvas-marrons) e as armadeiras . Mesmo no caso dessas espécies, é importante destacar que elas não são agressivas por natureza. Picadas geralmente acontecem por acidentes, como ao calçar um sapato ou manusear objetos onde a aranha estava escondida.
Enquanto muitas aranhas possuem cores chamativas e padrões distintivos, outras podem ter grande similaridade e tornar sua identificação mais trabalhosa. Ainda assim, com alguma atenção podemos notar características que nos permitem diferenciá-las — como é o caso das aranhas-lobo e das aranhas-armadeiras. Reconhecer as diferenças entre os dois grupos pode ajudar a evitar preocupações desnecessárias ou decisões erradas, como tentar matar uma aranha que, na verdade, pode trazer benefícios ou, ao contrário, subestimar um animal realmente perigoso.
Aranhas-lobo
As aranhas-lobo ou aranhas-de jardim, são solitárias, geralmente não fazem teias, e são conhecidas por carregar seus filhotes em cima de seus abdômens. O tamanho do corpo pode variar conforme a espécie, podendo chegar a 5 cm5, sem as patas e sua coloração é marrom e/ou preta. Podem ser identificadas pelas linhas claras em sentido longitudinal no cefalotórax e no abdômen, onde formam um desenho similar a uma seta na maioria das espécies.
Apesar do tamanho pequeno e ser de difícil visualização, também podem ser identificadas pelo posicionamento dos olhos. Quase todas as aranhas possuem oito olhos, dispostos diferentemente em cada família. Nas aranhas-lobo, há dois olhos na parte frontal do cefalotórax (onde fica a cabeça) e outros dois lateralizados, sendo grandes e proeminentes, outros quatro olhos são menores e enfileirados horizontalmente logo abaixo destes6.

Embora estas aranhas possam ocasionalmente picar humanos, não são perigosas e só picam quando se sentem ameaçadas, são pressionadas contrao corpo por acidente ou são mal manuseadas. Picadas de aranha-lobo geralmente causam apenas vermelhidão leve e coceira7. As aranhas-lobo são uma fonte vital de controle natural de pragas de jardins e casas, uma vez que atacam pragas como cigarras, formigas, lagartas, percevejos, baratas e outros artrópodes8.
Aranhas-armadeiras
As armadeiras, também chamadas de aranhas-da-bananeira, possuem certas similaridades com as aranhas-lobo, como o tamanho9 e o hábito de caminharem no chão em vez de construir teias. No entanto, podem ser diferenciadas por terem uma linha escura e fina no cefalotórax. Além disso, muitas espécies possuem um padrão similar a corações no abdômen. Apesar de não ser igualmente notável, muitas possuem quelíceras avermelhadas, no entanto, a característica mais determinante é o posicionamento dos olhos, tendo 4 olhos pequenos posicionados na frente da cabeça (como em um dado) e 2 olhos pequenos em cada lateral10.

As armadeiras são famosas por adotarem a postura defensiva característica com os dois pares de pernas frontais mantidas levantadas enquanto a aranha oscila de um lado para o outro com as patas traseiras9. No entanto, é importante salientar que há muitas outras espécies que podem adotar a mesma postura11, (como as próprias aranhas-lobo e as tarantulas, que também não são consideradas aranhas de importância médica) e apenas essa característica não é suficiente para afirmar que se trata de uma armadeira.
As armadeiras são algumas das poucas espécies conhecidas por apresentar uma ameaça para os seres humanos. São encontradas em todo o Brasil (com exceção do nordeste) e, embora sejam aranhas errantes e de hábitos noturnos, demonstram uma grande capacidade de adaptação a ambientes modificados pelo homem, sendo frequentemente encontradas em áreas urbanas.
Lugares escuros são esconderijos ideais durante o dia, isso inclui dentro de calçados, em cachos de bananas, em pilhas de madeira, gravetos, entulhos ou materiais de construção, e se forem acidentalmente perturbadas, podem picar. Na maioria dos casos os sintomas da picada são: dor, inchaço, vermelhidão, e formigamento. Em casos mais graves ou moderados, podem ocorrer sudorese, taquicardia, vômitos, hipertensão ou hipotensão. Casos críticos podem levar à complicações cardíacas e respiratórias.
A grande maioria dos casos (89,8%) é classificada como leve. Acidentes moderados e graves (8,5 % e 0,5% respectivamente) ocorrem principalmente em crianças e idosos. Além dos quadros clínicos mencionados, é importante notar a ocorrência de casos assintomáticos, que correspondem ao fenômeno da picada seca. Nessas raras situações, a aranha pica o indivíduo, mas não ocorre a injeção de veneno, resultando na ausência total de manifestações locais ou sistêmicas. Por não apresentarem dor ou complicações decorrentes do envenenamento, os pacientes classificados nessa categoria geralmente não requerem o uso de analgésicos ou outros tratamentos médicos específicos12.

Se houver suspeita de picada por uma aranha-armadeira, a rapidez no atendimento é fundamental, especialmente para crianças e idosos. O veneno tem ação rápida no sistema nervoso, portanto, siga orientações baseadas em protocolos de saúde pública. O primeiro passo deve ser lavar o local da picada apenas com água e sabão neutro para prevenir infecções secundárias, mantendo o membro afetado em posição elevada. Diferente de outros acidentes, o uso de compressas mornas no local pode auxiliar no alívio da dor intensa até que o atendimento médico seja alcançado.
É crucial procurar assistência médica imediatamente em um pronto-socorro. Sob nenhuma circunstância deve-se fazer torniquetes, garrotes, cortes no local da picada ou tentar sugar o veneno, pois essas práticas não impedem a absorção da toxina e aumentam o risco de necrose e infecções graves. Também deve-se evitar a aplicação de substâncias caseiras como fumo ou álcool e a ingestão de bebidas alcoólicas, que podem acelerar a circulação do veneno.
No hospital, os profissionais realizarão o controle da dor com anestésicos e, se necessário, administrarão o soro antiaracnídico específico, monitorando constantemente a pressão arterial e a frequência cardíaca para garantir a estabilização do quadro clínico13.
A compreensão dessas distinções e dos protocolos de segurança são passos fundamentais para substituir o pânico pelo respeito consciente. Embora as aranhas-armadeiras exijam cautela, as aranhas-lobo e a vasta maioria das outras espécies são aliadas silenciosas que desempenham funções essenciais no equilíbrio do ambiente.
Como predadoras naturais de insetos, elas controlam populações que, de outra forma, poderiam se tornar pragas agrícolas ou vetores de doenças humanas. Portanto, reconhecer essa diversidade e entender o papel biótico das aranhas não apenas garante a segurança individual em casos de risco real, mas também promove uma relação mais equilibrada com a natureza, permitindo a preservação de animais que são vitais para a saúde dos ecossistemas.
| Característica | Aranha-lobo (Família Lycosidae) | Aranha-armadeira (Gênero Phoneutria) |
|---|---|---|
| Identificação no Abdômen | Pode ter um desenho similar a uma seta ou lança formado por linhas. | Padrões de manchas no centro que podem lembrar corações. |
| Marca no Cefalotórax | Coloração marrom/preta, com faixas claras e escuras, pode ter faixas radiadas. | Linha escura e fina no sentido do comprimento. |
| Cor das Quelíceras | Frequentemente em tons de marrom ou preto. | Frequentemente avermelhadas ou róseas. |
| Arranjo dos Olhos | 2 olhos grandes frontais, 2 laterais e 4 pequenos abaixo em linha. | 4 olhos centrais formando um quadrado e 2 em cada lateral. |
| Cuidado Parental | Carrega os filhotes sobre o abdômen. | Não apresenta este comportamento. |
| Risco à Saúde | Baixo (reação local leve — vermelhidão e coceira). | Alto (veneno potente, exige atendimento médico). |
Referências:
-
M.P, Sugumaran; K, Natarajan; G, Porkodi; G, Gayathry; J, Jayakumar; K, Kalaichelvi; K, Suganya; S, Akila; M, Sindhuja. Spiders as Natural Pest Controllers: Insights into Their Distribution, Diversity, and Ecological Impact in Agriculture. Journal of Applied Life Sciences International, [S. l.], v. 27, n. 5, p. 1–9, 2024. DOI: https://10.9734/jalsi/2024/v27i5655. ↩︎ ↩︎
-
BRESCOVIT, A. D.; OLIVEIRA, U. DE .; SANTOS, A. J. DOS .. Aranhas (Araneae, Arachnida) do Estado de São Paulo, Brasil: diversidade, esforço amostral e estado do conhecimento. Biota Neotropica, v. 11, p. 717–747, jan. 2011. DOI:https://doi.org/10.1590/S1676-06032011000500035. ↩︎
-
NENTWIG, Wolfgang; KUHN-NENTWIG, Lucia. Spider Venoms Potentially Lethal to Humans. In: NENTWIG, Wolfgang (ed.). Spider Ecophysiology. Berlin; Heidelberg: Springer, 2013. p. 253–264. DOI: https://doi.org/10.1007/978-3-642-33989-9_19 . ↩︎
-
LEMELIN, Raynald Harvey; YEN, Alan. Human–Spider Entanglements: Understanding and Managing the Good, the Bad, and the Venomous. Anthrozoös, v. 28, n. 2, p. 215–228, 2015. DOI: https://10.1080/08927936.2015.11435398. ↩︎
-
MUSEU DE HISTÓRIA NATURAL – MHN/UFLA. Lycosa erythrognatha — Aranha-lobo (Lycosa sp.). Lavras: Museu de História Natural, Universidade Federal de Lavras, 2023. Disponível em: https://museus.ufla.br/documentacao_mhn/index.php/animais/lycosa-sp-2/ ↩︎ ↩︎
-
BRITANNICA, The Editors of Encyclopedia. Wolf spider. Encyclopedia Britannica. Última atualização: 21 nov. 2025. Disponível em: https://www.britannica.com/animal/wolf-spider ↩︎
-
LÜDDECKE, Tim; HERZIG, Volker; VON REUMONT, Björn M.; VILCINSKAS, Andreas. The biology and evolution of spider venoms. Biological Reviews of the Cambridge Philosophical Society, v. 97, n. 1, p. 163–178, 2022. DOI: 10.1111/brv.12793. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/brv.12793 . ↩︎
-
EDGAR, W. D. Prey and predators of the wolf spider Lycosa lugubris. Journal of Zoology, v. 159, n. 4, p. 405–411, 1969. DOI: https://10.1111/j.1469-7998.1969.tb03897.x. ↩︎
-
GUÉRIN, Christian. The non‑Amazonian species of the Brazilian wandering spiders of the genus Phoneutria Perty, 1833 (Araneae: Ctenidae), with the description of a new species. Zootaxa, v. 1526, n. 1, p. 1–??, jul. 2007. DOI: https://10.11646/zootaxa.1526.1.1. ↩︎ ↩︎
-
VETTER, Richard S.; HILLEBRECHT, Stefan. Distinguishing two often‑misidentified genera (Cupiennius, Phoneutria) (Araneae: Ctenidae) of large spiders found in Central and South American cargo shipments. American Entomologist, v. 54, n. 2, p. 88–93, abr. 2008. DOI: https://10.1093/ae/54.2.88. ↩︎
-
Kaya, Rahsen & Özkütük, Recep Sulhi & Kunt, Kadir. (2021). Observations on defensive behaviour of the spider Lachesana blackwalli (Araneae: Zodariidae). SERKET The Arachnological Bulletin of the Middle East and North Africa. 18. 152-156. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/356290026 . ↩︎
-
BUCARETCHI, Fábio; DEUS REINALDO, Cláudia Regina; HYSLOP, Stephen; MADUREIRA, Paulo Roberto; DE CAPITANI, Eduardo Mello; VIEIRA, Ronan José. A clinico‑epidemiological study of bites by spiders of the genus Phoneutria. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, v. 42, n. 1, p. 17–21, 2000. DOI: https://10.1590/S0036‑46652000000100003. ↩︎
-
Secretaria da Saúde. Acidentes por Aranhas. Disponível em: https://www.saude.pr.gov.br/Pagina/Acidentes-por-Aranhas . Acesso em: 14 jan. 2026. ↩︎