A diversidade dos cervos brasileiros

Os cervos, se distinguem de outros ruminantes como bois, cabras e antílopes por terem galhadas em vez de chifres. Os cervídeos fazem parte de um dos grupos de mamíferos mais diversos, com mais de 60 espécies espalhadas pelas Américas, Europa e Ásia, Porém, o Brasil – com oito espécies atualmente reconhecidas, possui a maior diversidade do mundo.

Destas oito, cinco, pertencem ao gênero Mazama, no entanto, como acontece com muitos animais endêmicos, estudos sobre os cervídeos desse gênero ainda precisam ser mais aprofundados. Mesmo após vários anos de análise, sua taxonomia é incerta e não é possível afirmar o número de espécies ou subespécies de cervos pertencentes a esse gênero com exatidão.

Veado-catingueiro

Veado-catingueiro. Imagem de Bernard Dupont via flickr

Nome científico: Mazama gouazoubira

Também conhecido como veado-branco ou veado-virá. Ocorre em todo o Brasil, com exceção da região Norte. Pesa por volta de 18 kg, e possui cerca de 50 cm até a altura da cernelha. Sua coloração pode variar muito, indo do cinza escuro até o marrom-avermelhado.

A maioria dos indivíduos possui uma mancha branca acima dos olhos – característica única dessa espécie. A galhada não é ramificada e possui entre 6 e 12 cm de comprimento, sendo observada principalmente entre maio e julho.

Devido a sua grande adaptabilidade, o veado-catingueiro pode morar em áreas modificadas pelo homem, como canaviais ou plantações de pinheiro e eucalipto. Apesar de a adaptabilidade ser considerada na maioria dos casos, um bom sinal, tem causado certo nível de preocupação dado seu alto potencial de se tornar uma espécie invasora, dominando o território de outras espécies de cervos já ameaçadas.

Por ser uma espécie pouco conhecida, tomar ações sobre conservação ou controle torna-se um desafio. Mesmo sendo o cervídeo mais abundante do Brasil, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, encontra-se ameaçada de extinção.

Veado-roxo

Veado-roxo. Imagem de Luciano Bernardes via iNaturalist

Nome científico: Mazama nemorivaga

É uma espécie pequena, pesando cerca de 15 kg e medindo por volta de 48 cm. Sua pelagem é cinza, mesclada com pelos amarelados, principalmente nas laterais do corpo e habita exclusivamente a floresta amazônica.

Apenas no ano 2000, foi reconhecida como uma espécie diferente do veado-catingueiro, tendo sido confundida por muitos anos.Portanto, ainda é muito pouco conhecido, sendo necessário o aprofundamento em pesquisas taxonômicas e ecológicas – principalmente, sobre seu habitat e população. Sendo assim, até o momento não é possível mensurar se a espécie encontra-se ameaçada ou não.

Veado-mateiro

Veado-mateiro. Imagem de Bernard Dupont via flickr

Nome científico: Mazama americana

Também conhecido por veado-pardo, veado-vermelho, entre outros. É a maior espécie do gênero Mazama, com cerca de 30 kg porém, pode chegar até 65 kg; possui proximadamente 70 cm de altura até cernelha, e seu comprimento varia de 90 a 145 cm. Sua pelagem é avermelhada, com manchas brancas abaixo da cauda, parte interna das orelhas e dos membros, a parte de trás do pescoço costuma ser mais escura.

Possui a maior distribuição entre os cervos sul-americanos, entretanto, na Caatinga e partes do sul e sudeste são raramente encontrados, principalmente pela perda de hábitat devido à expansão urbana e agrícola. Porém, enquanto os indivíduos na região sudeste estão em perigo de extinção, a população amazônica têm conseguido prosperar, mesmo sob a influência da caça que ainda é costume na região.

Veado-mateiro-pequeno

Nome científico: Mazama bororo

Sua descoberta na década de 90 foi surpreendente, já que um cervo de 24 kg e 50 cm de cernelha havia passado despercebido por tanto tempo, mesmo ocorrendo nas regiões mais populosas e estudadas do país – o litoral de São Paulo e possivelmente no Paraná.

Sabe-se muito pouco sobre o veado-mateiro-pequeno, e a maioria dos relatos sobre ele, vem de moradores locais. Desde sua descoberta, a espécie foi descrita como ameaçada de extinção, por ser muito caçada na região e já ter uma perda grande perda de habitat. Provavelmente, a espécie ocorria em todo o litoral até Santa Catarina, mas sua presença fora de São Paulo, ainda não pôde ser confirmada.

Veado-mão-curta

Veado-mão-curta. Imagem de Carlos Schmidtutz via iNaturalist

Nome científico: Mazama nana

É o menor cervídeo do Brasil, pesando apenas 15 kg e com 45 cm de altura até a cernelha. Suas pernas – principalmente as frontais, são bem curtas, o que deu origem ao seu nome.

O veado-mão-curta – ou cambuta, assim como grande parte dos cervídeos brasileiros é muito pouco conhecido, a única informação sobre a espécie se resume principalmente à sua distribuição geográfica. No país, sua presença só pode ser confirmada em algumas regiões isoladas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Entrou para a lista das espécies ameaçadas em 2003 e com tão pouca informação ao seu respeito, torna-se impossível uma avaliação realista das ameaças sofridas pela espécie. Porém, as principais causas provavelmente são a perda de habitat, caça ilegal e doenças transmitidas por cães.

Veado-campeiro

Veado-campeiro. Imagem de Eden Fontes via iNaturalist

Nome científico: Ozotoceros bezoarticus

É a única espécie de cervídeo do Brasil encontrada exclusivamente em áreas abertas. Possui porte médio, com cerca de 70 cm de altura até a cernelha e pesando de 30 a 40 kg, sendo maior do que cervídeos do gênero Mazama. A coloração varia geograficamente, caracterizando as cinco subespécies – das quais duas ocorrem no Brasil. Sua galhada é bem desenvolvida, com até 30 cm de comprimento e geralmente possui três pontas.

São animais majoritariamente diurnos, pouco sociáveis, vivendo em grupos pequenos, dificilmente excedendo 5 ou 6 indivíduos.

Originalmente, era a espécie dominante em todo o Brasil, porém com a introdução do gado doméstico, plantações de eucalipto e pinheiros e a caça furtiva, sua população foi drasticamente afetada, com estimativas de que até 98% de sua distribuição original foi reduzida. Atualmente, encontram-se populações isoladas por todo o país, sendo listado pela maioria dos estados como criticamente ameaçado e apenas no Pantanal, pode ser considerado abundante.

Cervo-do-pantanal

Cervo-do-pantanal. Imagem de Rodolfo Pineda Pérez via iNaturalist

Nome científico: Blastocerus dichotomus

É a maior espécie de cervo da América Latina e um dos maiores mamíferos do Brasil. Pesam entre 100 e 130 kg e possuem cerca de 130 cm de altura da cernelha. A coloração avermelhada do cervo-do-pantanal torna-o facilmente identificável. Suas pernas, cauda, região ao redor dos olhos e o focinho são negros.

A galhada é bem ramificada, com até 60 cm de comprimento e podendo chegar a apresentar até doze pontas no total, variando conforme a idade e a qualidade da alimentação. O cervo-do-pantanal é o único na América do Sul que possui uma membrana interdigital entre os cascos que o ajuda a se locomover em ambientes pantanosos.

Originalmente, habitava os cinco biomas do país porém, a espécie vem desaparecendo muito rapidamente. Estados que originalmente eram habitados por grandes populações, hoje possuem apenas grupos isolados, levando a possíveis extinções locais em um futuro próximo. Em vários estados, é listado como em risco de extinção principalmente devido à caça, perda de habitat e doenças. Apenas no Pantanal seu avistamento é mais comum.

Cariacu

Cariacu. Imagem de Fernando Farias via iNaturalist

Nome científico: Odocoileus virginianus

Também conhecido como veado-da-virgínia ou veado-de-cauda-branca – característica notável quando eleva a cauda ao pressentir algum sinal de perigo.

É o único veado que está presente nas Américas do Norte, Central e no Brasil, possuindo a maior distribuição do continente. Possui cerca de quarenta subespécies, porém, essa quantidade é questionável. No Brasil, ocorre apenas a subespécie Odocoileus virginianus cariacou, que é menor do que a espécie americana – enquanto as espécies norte-americanas que podem chegar a 215 kg, o cariacou possui 30 e 50 kg e cerca de 60 ou 70 cm até a cernelha. Sua coloração geralmente é marrom–acinzentada no dorso e mais clara no ventre, podendo ter manchas brancas ao redor dos olhos.

O veado-de-cauda-branca, é o cervídeo mais estudado em todo o mundo, porém, a maioria das informações são com relação às subespécies norte-americanas. Portanto, a situação torna-se invertida no Brasil, tornando a espécie menos estudadas do país, não sendo conhecida nem mesmo sua distribuição geográfica corretamente.

Apesar de a sua ocorrência ser mencionada ao norte do rio Amazonas, os pouquíssimos registros existentes estão relatam que a essa subespécie ocorre em grande parte no extremo norte do Brasil, no Amapá e Roraima e possivelmente em parte do estado do Acre. Apesar de anteriormente ter sido considerado como ameaçada de extinção, atualmente, encontra-se como dados insuficientes (DD), devido ao pouco conhecimento sobre a espécie no país.


O Brasil é um dos países com a maior diversidade biológica do mundo, o que acaba tornando o conhecimento sobre nossa fauna e flora muito limitado. Se não conhecemos nem mesmo todas as espécies de grandes mamíferos e aves, essa ignorância é ainda mais grave se tratando de invertebrados ou micro-organismos.

Considerando o tamanho do país, há lugares em que pouco, ou nenhum estudo biológico tem sido feito. Além disso, nossa incompreensão é ainda mais grave em relação à distribuição geográfica de cada espécie, já que é difícil obter mapas devidamente completos sobre a maioria dos nossos animais.

O funcionamento dos ecossistemas, e todo o bem-estar que ele traz aos humanos, depende principalmente da grande variedade de insetos, algas, microrganismos e animais. Por isso, é preciso investir na conservação da biodiversidade não só preservando o meio ambiente, mas também estudando sobre a diversidade e a organização ecológica do Brasil.


Leia mais em:

The surprising evolutionary history of South American deer

Plano de ação nacional para a conservação dos cervídeos ameaçados de extinção

Avaliação do risco de extinção do veado-catingueiro - Mazama gouazoubira

Avaliação do Risco de Extinção do Veado-roxo

Mudança, incerteza e desconhecimento: a biodiversidade brasileira no século XXI