Coral-sol: Um risco para a biodiversidade

Quando nos referimos ao coral-sol, estamos falando de duas espécies, a Tubastraea coccinea e Tubastraea tagusensis. Ambas são encontradas no litoral brasileiro, mas são nativas do Oceano Pacífico.

Começaram invadindo o Mar do Caribe e o Golfo do México na década de 40 e depois foram trazidos acidentalmente para o Brasil, nos cascos dos navios ou nas plataformas de petróleo durante os anos 80.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, atualmente há registros de sua presença em quase toda a costa brasileira – desde Santa Catarina até Sergipe – em costões rochosos naturais ou estruturas artificiais como píeres, boias e plataformas de petróleo.

Coral-sol

Coral-sol. Imagem de Ryan McMinds via Flickr

Espécies invasoras (como o coral-sol) são qualquer ser vivo encontrado fora de sua área de distribuição natural, que ameaçam a biodiversidade ou ecossistema natural de uma determinada região. Também podem causar danos econômicos ou à saúde, além da possibilidade de provocarem impactos socioculturais. Tanto o T. coccinea quanto o T. tagusensis possuem várias características indesejadas de espécies invasoras, como crescimento e reprodução acelerados e fácil dispersão.

No pico de reprodução, uma colônia adulta de coral-sol pode produzir mais de mil larvas por dia. Em boas condições – como a do litoral na região Sudeste – pode se espalhar a ponto de dominar todo um ambiente, substituindo as espécies nativas e alterando toda a ecologia marinha.

Fatores que geralmente limitam a existência de outros organismos no ambiente marinho, como luz, pH, salinidade e oxigênio dissolvido, parecem não os afetar, já que são altamente resistentes a alterações do ambiente.

Além de não possuir um predador natural em águas brasileiras, as duas espécies de coral-sol possuem defesas químicas através da produção de substâncias com propriedades anti-incrustantes e antipredação e da liberação de substâncias capazes de causar necrose em outras espécies. Também possuem a capacidade de se regenerarem a partir de pequenos fragmentos residuais.

Coral-sol

Coral-sol. Imagem de Laszlo Ilyes via Flickr

Em Alcatrazes, a 35 km ao Sul de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, os corais-sol representam um grande risco para a fauna nativa. Detectados já em estágio avançado em 2011, vêm sendo monitorados e removidos para que não se tornem uma praga ainda maior, embora a erradicação completa seja considerada impossível de se atingir.

O único jeito de controlar a disseminação é removendo-o manualmente do ambiente, colônia por colônia, com o uso de talhadeira e martelo. Milhares de colônias e toneladas de coral-sol já foram removidas por diversas instituições não governamentais em centenas de operações, e com isso foi possível reduzir em mais de 2 bilhões o número de larvas de coral-sol que poderiam ter sido espalhadas.

Em ilhas próximas a Alcatrazes onde ainda não é feito manejo, o nível de infestação é ainda maior. A Ilha de Búzios e o Parque Estadual da Laje de Santos são uns dos mais afetados: aí o coral já causou danos significativos, com vários de seus costões cobertos quase que completamente desse único coral.

A probabilidade de sucesso na erradicação do bioinvasor diminui com a dificuldade de acesso – quanto maior a profundidade em que uma espécie é encontrada, menor é a probabilidade de controlá-la. E, além da profundidade, o coral-sol não precisa de muita luz para sobreviver; portanto, tem o hábito de crescer em fendas – lugares escuros e de difícil acesso – outro fator limitante para o manejo, o que impede o acesso manual e até visual.

Colônia de coral-sol

Colônia de coral-sol. Imagem de Matthew Hoelscher via Flickr

No Brasil são transportados por via marítima aproximadamente 95% de todo o comércio exterior. Da mesma maneira, o transporte marítimo apresentou crescimento de 130% nos últimos trinta anos e, atualmente, representa 80% do comércio global. Estes altos fluxos de embarcações entre os portos aumentam consideravelmente os riscos de introdução de espécies exóticas invasoras como o coral-sol.

Existem várias ações que vem sendo desenvolvidas por diferentes setores da sociedade no Brasil e no mundo para combater, prevenir e controlar a proliferação do coral-sol, porém a maioria dos métodos aplicados atualmente que são viáveis tem eficiência limitada. Evidentemente, uma solução definitiva não é simples: como grande parte do comércio mundial depende do transporte marítimo, é ainda mais preocupante o fato de não haver estimativas de um prazo para que espécies invasoras deixem de ser introduzidas fora de seus locais de origem.

Um ambiente saudável requer biodiversidade de espécies e habitats. Os recifes de corais nativos servem de abrigo para muitas espécies de crustáceos, algas e peixes que vivem na costa brasileira. Do mesmo modo, em cada região, animais e ambiente se adaptam mutuamente, garantindo o equilíbrio do ecossistema. O controle da espécie invasora é importante, portanto, não apenas para garantir a conservação dos corais nativos, mas também de toda a vida marinha e atividades econômicas associadas aos ambientes costeiros.


Leia mais em: O controle da invasão do coral-sol no Brasil não é uma causa perdida

Plano nacional de prevenção, controle e monitoramento no Brasil - MMA, Ibama e ICMBio 2020

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