Os peixes mais surpreendentes do Brasil - Parte I

No Brasil, existem pelo menos 2.300 espécies de peixes de água doce atualmente conhecidas, e estima-se que 1.400 espécies ocorram na bacia Amazônica, representando de longe, a mais rica em espécies no Brasil. E mesmo assim, nossa incrível diversidade é desconhecida para a maioria das pessoas. A seguir, separamos alguns peixes brasileiros com características que certamente vão te surpreender.

1. Raia-maçã

Raia-maçã. Imagem de Cleo Lobato via Inaturalist

Raia-maçã. Imagem de Cleo Lobato via Inaturalist

A Paratrygon aiereba – também chamada de raia-disco, é uma das maiores (se não a maior) espécie de raia (ou arraia) brasileira de água doce. Seu nome popular – raia-maçã, é devido ao formato de seu corpo que, visto de cima, lembra uma maçã cortada ao meio. Ocorre na bacia do rio Amazonas, e a maioria dos indivíduos chega a 1,3 m de largura – mas há relatos de um exemplar de 2 m e 72 kg que foi capturado na calha do rio Solimões.

Banhistas desavisados podem acidentalmente ser ferroados por arraias (que, ao contrário das serpentes, não atacam) – seu ferrão serrilhado na base da cauda, com cerca de dez centímetros, é usado apenas como mecanismo de defesa. Ferroadas de arraia costumam ser extremamente dolorosas e podem até mesmo causar necrose na região do ferimento. Antídotos para o seu veneno ainda estão em estudos.

As raias de água-doce – incluindo a raia-maçã – são grandes alvos da pesca indiscriminada e/ou acidental. Além disso, durante o período de seca, é muito comum que pescadores locais façam um grande abate de raias com o fim de prevenir acidentes. O problema dessa prática, é devido ao pouco conhecimento e a falta dados sobre o estado de conservação destes animais, que mesmo assim, é considerado vulnerável à extinção.

2. Poraquê

Poraquê da espécie Electrophorus electricus nadando no Aquario de Dallas, Texas. Imagem de Tanya Dewey via animaldiversity

Poraquê da espécie Electrophorus electricus. Imagem de Tanya Dewey via animaldiversity

Embora pareça uma enguia, o poraquê é um peixe aparentado com a carpa e o bagre. É encontrado principalmente na Bacia amazônica, além do Mato Grosso e Rondônia, mas ocorre em quase toda a América do Sul. Pode chegar até os 2,5 m e até 20 kg.

Existem cerca de 120 peixes-elétricos apenas no Brasil. O poraquê ou, enguia elétrica, é sem dúvidas o que mais se destaca. Outros peixes emitem descargas fracas, para navegação ou comunicação. O poraquê, no entanto, usa suas descargas – muito mais altas do que de outros peixes – para a caça e defesa.

Até recentemente se acreditava que existia apenas uma espécie de poraquê. Mas em 2016 duas novas foram descobertas: a Electrophorus voltai e a E. varii, sendo que a emissão elétrica da E. voltai pode alcançar os 860 volts – até então, o recorde era de 650 volts, tornando a E. voltai o animal com a descarga elétrica mais alta já registrada.

Apesar da alta voltagem, sua descarga dura apenas um ou dois segundos, e seus efeitos em um humano não passam de uma rápida dor e contração muscular. Porém, a situação pode ser outra, caso esteja dentro de um rio cercado com esses peixes: quando um libera sua descarga, todos os outros em volta fazem o mesmo. Nesse caso em particular, a descarga de vários poraquês, simultaneamente, poderia ser fatal – apesar de um acidente como esse nunca ter sido documentado.

3. Tilápia-do-nilo

Tilápia-do-nilo. Imagem da Germano Roberto Schüü via Wikimedia

Tilápia-do-nilo. Imagem da Germano Roberto Schüü via Wikimedia

A tilápia é amplamente conhecida e apreciada na culinária brasileira mas, na verdade, é um peixe africano, introduzido no Brasil nos anos 70. Porém, o fator de destaque que torna esse peixe tão impressionante é o fato de sua pele ser ótima para tratar queimaduras de 2º e 3º grau, tanto de humanos, quanto de animais.

Esse método, pioneiro no uso de peixes para tratar queimaduras, foi desenvolvido em 2015 pelo cirurgião plástico e presidente do Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), Edmar Maciel. A pele de tilápia contém substâncias que aderem melhor à pele humana e diminuem as chances de infecção. Além disso, ao contrário dos curativos tradicionais, que precisam ser trocados diariamente (aplicando novas camadas de cicatrizantes), a pele de tilápia precisa ser aplicada somente uma vez – ou em casos de queimaduras mais graves, apenas uma vez na semana. Seu uso é capaz de acelerar a cicatrização e diminuir a dor dos pacientes.

Mas não pense que qualquer tilápia pega em rios é adequada para isso, as peles usadas para esses tratamentos são devidamente tratadas e descontaminadas por especialistas da área. Os resultados da pele de tilápia como cicatrizante têm visto sua eficácia ser comprovada, e depende apenas do registro da Anvisa para seu uso ser autorizado em hospitais. Porém, esse processo pode levar alguns anos.

Segundo a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), o Brasil é o quarto maior produtor de tilápia do mundo, representando quase 60% da produção de peixe do país. A piscicultura, além de fornecer alimento, agora é capaz de oferecer um produto de baixo custo e de excelente resultado, demonstrando que a produção de tilápias no Brasil é sustentável.

4. Tambaqui

Tambaqui. Imagem de Bernard DUPONT via Flickr

Tambaqui. Imagem de Bernard DUPONT via Flickr

O tambaqui, ou pacu-vermelho, ocorre naturalmente nas bacias do rio Amazonas e Orinoco. Pertence à mesma família das piranhas, apesar disso, se alimenta principalmente de castanhas, frutas e sementes que caem na água e caracóis.

Essa alimentação diferenciada é o que deu ao tambaqui uma dentição tão chamativa – duas fileiras de dentes, sendo a primeira composta de grandes molares, muito parecida com dentes humanos. Esses fortes dentes, são usados para quebrar a casca das castanhas ou sementes com as quais venha a se alimentar.

O tambaqui pode alcançar até 110 cm de comprimento. Antigamente, era possível capturar exemplares com até 45 quilos, mas hoje, por causa da sobrepesca, quase não existem indivíduos desse porte.

5. Piranha

Piranha vermelha nadando. Quando vista de perto é possível ver as pontas dos dentes em sua boca. Imagem de Nathan Rupert via Flickr

Piranha vermelha. Imagem de Nathan Rupert via Flickr

As piranhas possuem dentes serrilhados, pontiagudos e afiados em seus dois maxilares, totalmente adaptados para perfurar e cortar a carne. As piranhas possuem a mordida mais forte (com relação ao seu tamanho) entre os peixes que possuem escamas. Podem alcançar até 40 cm de comprimento e viver em cardumes de até 100 indivíduos. Ocorrem em grande parte da América do Sul.

Conhecidas por devorar qualquer coisa que entre na água, a piranha é sem dúvida uma dos peixes mais conhecidos do Brasil. Até mesmo filmes tiveram piranhas como “protagonistas”. Apesar de serem conhecidas por sua agressividade, ataques a humanos são raros. Normalmente, são motivados pelo cheiro de sangue na água, pela época de reprodução – para proteger sua prole ou pelo manejo inadequado durante a pesca.

Tanto as piranhas, quanto seus “primos” pacus e tambaquis trocam todos os dentes várias vezes durante suas vidas e, a pesar da fama, são onívoras e se alimentam principalmente de outros peixes, pequenos animais terrestres que caiam na água, crustáceos, e até mesmo frutas, sementes e algas.

O que torna esses peixes ainda mais surpreendentes é que – assim como os bagres, as piranhas podem vocalizar. São capazes de vocalizar três sons diferentes: um som como o de latido durante confrontos específicos; um som como o de um pequeno tambor durante conflitos – que geralmente acontecem quando as piranhas competem por comida – e um rangido, que está associado ao perseguir e morder suas presas.

Ainda não conhecemos toda a riqueza da fauna brasileira, sendo provável que haja dezenas de espécies a serem descobertas. Em contrapartida, centenas de espécies – em grande parte na bacia Amazônica e na bacia do rio Tocantins – encontram-se ameaçadas, principalmente devido à construção das hidrelétricas, do desmatamento, do garimpo e da alta taxa de captura para o aquarismo.


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