Aranhas perigosas e aranhas benéficas

Primeiramente, é importante deixar claro que aranhas não são insetos. Aranhas fazem partes da Classe dos aracnídeos, na qual também fazem parte os escorpiões, carrapatos, ácaros e opiliões. As principais diferenças entre essa Classe e os insetos são que: os insetos possuem 6 pernas e os aracnídeos 8. Além disso, aracnídeos não possuem antenas.

As aranhas são sinônimo de perigo para a maioria das pessoas, principalmente por serem tão desconhecidas. Sabemos que têm aparência estranha, presas que podem inocular veneno e que algumas podem causar graves feridas — até mesmo levando à morte.

Sendo a maioria das aranhas de pequeno tamanho, suas características distintivas se tornam mais difíceis de serem percebidas, fazendo com que nosso medo e desconhecimento seja generalizado a todas as aranhas. Apesar de no Brasil, apenas 3 grupos de aranhas serem considerados perigosos.

1 – Aranha-marrom

Aranha marrom vista de cima em uma folha

Aranha marrom. Imagem de Ferran Turmo Gort via flickr

Aranhas do gênero Loxosceles – popularmente conhecidas como aranha-marrom, possuem cerca de 3 ou 4 cm, corpo castanho com o abdômen mais escuro. São mais ativas durante as noites quentes de verão e preferem ficar em locais escuros e apertados.

Não são aranhas agressivas, picando apenas para defesa, por exemplo quando alguém está prestes a acidentalmente esmagá-las durante o sono, ao calçar algum sapato ou ao manusear objetos guardados em locais escuros.

Quando um ser humano for picado, os primeiros sinais só serão percebidos após 12 ou 14 h com inchaço, vermelhidão no local, dor e febre. Se não tratada, a picada pode causar necrose na região. Além disso, embora seja muito rara e relatada em apenas 1,5% dos casos, existe a possibilidade de morte em caso de alguma complicação ou se o atendimento correto demorar a ser feito.

Curiosamente, existem outras duas aranhas que são frequentemente confundidas com a aranha-marrom: a aranha-vermelha e a aranha-cuspideira.

A aranha-vermelha é extremamente comum nas casas brasileiras e normalmente fazem suas teias nos cantos das paredes e atrás de móveis. Seu corpo costuma ser avermelhado e a cor de seu abdômen pode variar do creme-acinzentado, ao marrom escuro. Seu corpo e suas pernas são menores do que a aranha-marrom.

Aranha vermelha

Aranha-vermelha. Imagem de Juju98 via iNaturalist

A aranha-cuspideira é assim conhecida por cuspir veneno em suas vítimas (insetos), paralizando-as. Seu corpo geralmente é de coloração escura e suas pernas possuem um marrom-avermelhado – principal motivo da confusão com a aranha-marrom.

Aranha-cuspideira em sua teia

Aranha-cuspideira. Imagem de Widebrownland via iNaturalist

Ambas aranhas são muito comum em residências e não apresentam perigo algum ao ser humano, mesmo em casos de picadas acidentais. Na verdade, são consideradas benéficas por capturarem insetos que podem ser prejudiciais, como mosquitos e outras aranhas, inclusive a aranha-marrom.

2 – Viúva-negra

A viúva-negra é sem dúvida uma das aranhas mais conhecidas no mundo, porém é a menos perigosa das três espécies aqui mencionadas. É uma aranha facilmente identificável por seu notório vermelho em meio ao seu corpo totalmente preto. Mas que muitas pessoas não sabem é que no Brasil, ocorrem pelo menos duas espécies de viúvas-negras:

Viúva-marrom em sua teia

Viúva-marrom. Imagem de Kit Law via iNaturalist

A L. geometricus é a mais diferente – conhecida popularmente como viúva-marrom. Possui belos padrões que vão desde o castanho e laranja, até o preto, marrom e vermelho, seus desenhos normalmente são contornados com uma linha branca. Suas pernas são listradas de preto e castanho e como todas as viúvas-negras, possui a forma semelhante a uma ampulheta na parte inferior do abdômen.

A L. curacaviensis é popularmente conhecida por “flamenguinha” seu corpo é completamente negro, com grandes listras vermelhas por todo o seu abdômen, tornando-o mais vermelho do que preto. Sendo assim, uma espécie fácil de ser identificada.

Sete aranhas flamenguinhas em sua teia entre galhos. Em uma delas é possível ver o desenho de ampulheta na parte inferior de seu abdômen

Aranhas flamenguinhas. Imagem de Célio Moura Neto via iNaturalist

Essas aranhas costumam ser pequenas, com no máximo 3 cm. Vivem em teias que constroem sob a vegetação rasteira, em arbustos ou barrancos. Embora seja tão temida, pouquíssimos acidentes relacionados a esta aranha foram registrados – sendo a maioria no Sul e no Nordeste do país, todos de pequena ou média gravidade.

Os sintomas costumam ser: dor local intensa, contrações musculares, sudorese, alterações no ritmo cardíaco e priapismo. Em raros casos graves, pode ocorrer choque anafilático. O veneno tem ação neurotóxica e o tratamento normalmente é aplicação local de anestésico e, nos casos mais graves, com soro antiaracnídeo.

3 – Armadeira

Armadeira vista de frente com os dois pares de pernas posteriores levantados e quelíceras a mostra

Armadeira. Imagem de Juliano Marques via iNaturalist

Outros nomes comuns da armadeira são: aranha-macaco e aranha-de-bananeira. Essa aranha é sem dúvida a maior das aqui citadas, podendo alcançar até 17 cm – incluindo as patas. Sua coloração vai do cinza ao castanho-escuro.

Seu hábitat natural é em pequenos buracos no gramado, em bananeiras, coqueiros e palmeiras ou debaixo de troncos caídos e pedras. Pode ser encontrada em quintais e jardins de casas campestres na parte de atrás de objetos que costumam ficar no exterior da casa e até mesmo dentro de casas, em sapatos ou roupas – mas em menor frequência.

As armadeiras são responsáveis pelo maior número de acidentes no Estado de São Paulo, e embora produzam veneno 50% mais potente do que o da viúva-negra, raramente ocasionam acidentes graves.

Antes de picar assumem uma atitude típica para parecerem maiores e mais perigosas: apoiando-se nos dois pares de pernas traseiras, erguendo os dois dianteiros, mostrando suas presas e eriçando os espinhos, enquanto acompanha os movimentos do agressor. Se o agressor não se afastar, então será picado.

A maioria dos acidentes podem causar dor intensa que persiste durante algumas horas, queda de pressão, tontura, vômitos, sudorese, pulso acelerado, espasmos e — em crianças ou idosos, pode levar à morte. O tratamento é feito com aplicação local de anestésico e nos casos mais graves, usando soro antiaracnídeo.

Uma outra aranha que frequentemente é confundida com a armadeira, é a aranha-lobo. Ela faz parte da mesma família que as tarântulas e – como é comum no gênero, também costumam levantar suas pernas dianteiras antes de picar.

Aranha-lobo entre a grama

Aranha-lobo. Imagem de Carlos Henrique Russi via iNaturalist

Mas as principais diferenças estão no tamanho e na cor. A aranha-lobo é pequena, alcançando apenas 3 ou 4 cm. E sua coloração é marrom ou castanho-claro com desenhos pretos por todo o corpo, enquanto as cores da armadeira são mais uniformes.

A picada das aranhas-lobo (ou aranhas-de-jardim) não são tão potentes quanto a da armadeira, causando sintomas bem mais leves como dor, vermelhidão e inchaço local e pode ser tratada com simples analgésicos orais e anti-histamínico. Embora não sejam agressivas, nem apresentem perigo para humanos, frequentemente há acidentes por ser muito comum em áreas residenciais.


Dos mais de 100 mil casos de acidentes com aranhas entre 2009 e 2013, apenas 46,3% tiveram o gênero de aranha que picou identificado. Dentre esses 46%, a maioria dos casos correspondeu a aranha-marrom com 66,3%, seguido pela armadeira, com 32,8% e por último a viúva-negra com 0,9% do total. Durante o período estudado, apenas 0,2% das vítimas foram levadas a óbito.

Aranhas inofensivas mais encontradas em residências

Acidentes causados por aranhas podem ser comuns, porém algumas delas, nem mesmo possuem veneno ativo em humanos, e outras quando picam em raras ocasiões, geralmente causam inchaço e irritação, como a picada de um mosquito ou abelha. Além da aranha-vermelha e cuspideira é muito comum encontrarmos mais algumas em nossas casas como:

Papa-moscas ou Aranha-saltadora

Papa-moscas em uma folha, vista frontal. É possível ver seus grandes oito olhos alinhados em sua cabeça

Papa-moscas. Imagem de Rogerio Dias via iNaturalist

É a família mais numerosa de aranhas, contando com mais de 5 mil espécies (cerca de 13% das espécies de aranhas conhecidas no mundo). Estas aranhas possuem olhos bem desenvolvidos, sendo um dos mais complexos entre os artrópodes. Elas também são as únicas aranhas que podem ver faixas de cores, sendo que maioria das aranhas geralmente não consegue ver nada além de alguns centímetros a sua frente.

Elas possuem as mais variadas cores, podendo ser claras, escuras, possuírem cores brilhantes ou opacas, portanto, o formato de seu corpo a forma mais fácil de distingui-las de outros gêneros. Sua picada pode causar pequenas irritações na pele, como a picada de outros insetos ou mosquitos. É encontrada frequentemente andando em muros, procurando insetos para se alimentar.

Treme-treme

Aranha treme-treme de ponta cabeça em sua teia - vista frontal

Aranha treme-treme. Imagem de Diogo Luiz via iNaturalist

A treme-treme é conhecida por muitos nomes como: aranha-pernuda, aranha-de-porão, aranha-pernalonga e aranha-doméstica. Geralmente é vista nos cantos das paredes. Quando incomodada, começa a tremer em sua teia, como se estivesse sendo sacudida. É totalmente inofensiva e não possui veneno ativo, sua picada também é indolor.

Aranha-de-prata

Aranha de prata

Aranha treme-treme. Imagem de Gustavo R. Brito via iNaturalist

Existem 4 espécies dessa aranha no Brasil e apesar de serem pequenas com apenas 12 mm e seus corpos terem formatos diferentes, todas elas possuem algumas características que as tornam distinguíveis. A maioria possui as cores branca, preta e amarela em seu abdômen ou pernas. Além disso, a posição de suas patas costuma ficar em forma de “X”.

A aranha-de-prata é mais encontrada em jardins e vasos com plantas. São muito tranquilas e raramente picam. Seu veneno não é perigoso para os humanos e suas picadas – quando causam alguma reação, são comparáveis a uma picada de abelha resultando apenas em uma pequena vermelhidão e inchaço ocasional.


O Brasil é um dos países com a maior diversidade de aranhas do mundo, com mais de 3 mil espécies registradas. Dentre as quais apenas os 3 grupos aqui citados (aranhas-marrom, viúvas e armadeiras) são consideradas de importância médica. Encontro com essas aranhas também costumam ser menos comuns do que com as que são encontradas dentro de casa (aranha-vermelha, aranha-cuspideira, papa-moscas, aranha-de-prata e aranha-lobo).

Porém, se há a possibilidade de ter sido picado(a) por alguma das três aranhas consideradas perigosas, procure a unidade de saúde mais próxima de sua residência. Quanto mais rápido forem feitos os primeiros socorros, menores são as chances de evoluir para um caso grave.

O que fazer se for picado por uma aranha:

• Lave o local da picada.

• Use compressas mornas para ajudar no alívio da dor.

• Procure o serviço médico mais próximo.

• Se possível, leve o animal para identificação.

O que NÃO fazer se for picado por uma aranha:

• Não furar, queimar, cortar, espremer ou sugar o local da ferida.

• Não aplicar qualquer produto que não seja destinado ao tratamento.


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Aranhas mais comuns em residências

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Insetologia