Os peixes mais surpreendentes do Brasil - Parte II

O Brasil é um país privilegiado quando o assunto é disponibilidade de água-doce – 14% das reservas mundiais de água-doce estão distribuídas em 12 bacias hidrográficas por todo o país – sendo a bacia amazônica considerada a maior do planeta. Com uma extensão de água doce tão grande, não é de se estranhar que a diversidade de animais aquáticos seja enorme também. Hoje, veremos mais alguns peixes brasileiros que vão te surpreender.

1-Pirandirá

A imagem mostra o perfil de um crânio de piandirá relativamente pequeno. Além do comprimento de suas presas inferiores, é possível observar grande parte de seus outros dentes, todos pontiagudos e de diferentes tamanhos

Crânio de pirandirá - é possível ver o comprimento de suas presas desde a mandíbula inferior até a abertura nasal. Imagem de Smithsonian Institution

Também conhecidos como payara ou peixe-cachorra. Este segundo nome é dado por causa de seus enormes dentes que são tão grandes que a maxila superior possui dois buracos para acomodá-los quando a boca está fechada. Esses dentes enormes – que podem medir entre 10 e 15 cm são usados para empalar suas presas.

De fato, existem 4 espécies que ocorrem nas bacias do rio Amazonas e Orinoco. A maior delas é a Hydrolycus armatus que pode chegar aos 90 cm, porém há relatos de indivíduos maiores. As outras espécies são: H. tatauaia, H. scomberoides e H. wallacei que medem de 45 a 35 cm respectivamente, sendo que as maiores diferenças entre essas espécies estão em seus tamanhos e nas marcas escuras ao redor de suas nadadeiras e caudas.

Os pirandirás são nadadores fortes e ágeis, gostam de águas agitadas e povoam o fundo de represas, cachoeiras e corredeiras onde sempre há movimento e atividade. São grandes caçadores de piranhas e podem consumir até 50% de seu próprio peso.

Como é comum na fauna brasileira, sabe-se muito pouco sobre esse peixe, inclusive seu nível populacional é desconhecido.

2-Jaú

A imagem mostra uma pessoa segurando um jaú de aproximadamente 1 metro de comprimento pela parte de baixo de seu corpo, na horizontal, fora da água e junto ao seu corpo. O peixe possui uma ferida na nadadeira adiposa, onde cerca de metade dela está ausente.

Jaú. Imagem de Dom Porcelli via iNaturalist

O jaú ou jundiá-da-lagoa, pertence a mesma família que os bagres. É um dos maiores peixes brasileiros podendo alcançar até 1,6 m e pesar até 120 kg. Costuma ser um peixe passivo, ficando no fundo de cachoeiras e corredeiras esperando a oportunidade de capturar uma presa.

Possuem uma cabeça chata e longa, que pode alcançar até 1/3 de seu corpo. Suas nadadeiras estão dispostas de esporões e sua boca expansiva pode alcançar até 60% de seu comprimento, o que o permite capturar presas de até 2/3 o seu tamanho.

São peixes de ampla distribuição, sendo encontrados nas bacias do rio Amazonas, Araguaia-Tocantins e rio Paraná além das regiões Norte e Centro-Oeste. No Rio de Janeiro e São Paulo estão quase extintos.

3-Pirarucu

A imagem mostra a vista lateral de dois grandes pirarucus

Pirarucu. Imagem de Brian Gratwicke via flickr

Este é sem dúvida o maior peixe escamado do Brasil. Pode chegar a 3,20 m e pesar mais de 300 kg. Costuma viver em rios e lagos de águas limpas na bacia Amazônica.

O pirarucu era tradicionalmente considerado uma espécie única, porém posteriormente quatro espécies foram distinguidas. Como consequência dessa confusão taxonômica, a maioria dos estudos anteriores foram feitos usando o nome de uma espécie que na verdade, está atualmente extinta (A. gigas). Sendo que na verdade, a espécie mais vista e estudada é A. arapaima.

As outras espécies (A. agassizii e A. mapae) são tão desconhecidas que não se sabe se ainda existem ou se estão extintas.

Os pirarucus possuem escamas muito mais grossas e flexíveis do que de outros peixes, fazendo com que todo o seu corpo seja coberto por uma espécie de armadura, protegendo-o de predadores e até mesmo de mordidas de piranhas.

Peixes dessa família são tão antigos que um estudo genético, mostrou que os pirarucus se separaram das aruanãs há cerca de 220 milhões de anos, durante o Triássico tardio, ou seja, quando surgiram os primeiros dinossauros.

Os pirarucus são particularmente vulneráveis ​à pesca excessiva por causa de seu tamanho e porque precisam subir à superfície periodicamente para respirar. Além disso, a reprodução natural do peixe é o bastante para substituir a quantidade de indivíduos pescados. A exploração insustentável fez com que em 2004, o Ibama criasse uma Instrução Normativa para regulamentar a pesca do pirarucu na Amazônia, estabelecendo tamanhos mínimos para pesca e comercialização da espécie e proibindo-a em alguns meses do ano.

4-Piraíba

A imagem mostra a parte frontal de um piraíba, focando em seus olhos e bigodes.

Piraíba. Imagem de Jin Kemoole via flickr

O piraíba é o maior peixe de couro e o segundo maior peixe do Brasil, ficando atrás apenas do pirarucu. Assim como o jaú,também faz parte da família dos bagres e pode atingir até 2,5 m e pesar até 300 kg – indivíduos com menos de 60 kg são considerados filhotes. Ocorre nas bacias do rio Araguaia, Amazonas e Orinoco. Habita o fundo de canais e rios de água doce e salobra.

O piraíba possui barbilhões (bigodes) tão longos que podem alcançar até metade de seu comprimento. Nos jovens no entanto, chegam a ter até mesmo o dobro do tamanho do peixe. Os barbilhões são sensitivos e ajudam o peixe a encontrar suas possíveis presas, já que seus olhos são pequenos e não enxergam bem no fundo de rios turvos.

5-Piramboia

Vista lateral de uma piramboia

Piramboia. Imagem de Haplochromis via Wikimedia Commons

A piramboia é o único peixe com pulmão do Brasil. Pode alcançar até 1,25 m e é encontrado nas bacias do rio Amazonas, Paraguai e do baixo rio Paraná, habitando charcos e regiões pantanosas que secam nos períodos de pouca chuva.

Nessa época de seca, suas barbatanas peitorais e pélvicas podem agir como “pernas” para ajudá-los a caminhar um pouco na terra. A piramboia então abandona sua respiração branquial e se enterra na lama formando câmaras de 30 a 50 cm de profundidade, por onde passa a respirar o ar da superfície através de uma pequena abertura. Além disso, cobre seu corpo por um muco que reduz seu metabolismo drasticamente e impede que sua pele seque. Quando toda a água da região seca, o peixe entra em hibernação até a próxima temporada de chuvas – podendo ficar nesse estado por até 3 ou 4 anos.

Assim como as salamandras, os filhotes de piramboia nascem com guelras externas, e após 7 semanas, os jovens tomam sua forma adulta, perdendo as brânquias externas que são substituídas por aberturas branquiais como há em outros peixes.

É uma espécie surpreendentemente arcaica, sendo considerada uma das mais antigas a serem documentadas. Os fósseis mais antigos desses peixes, datam do final do Cretáceo, pouco antes da grande extinção que matou os dinossauros não aviários. Alguns consideram que esses peixes são os que deram origem aos animais terrestres. Durante milhares de anos, os peixes dessa família permaneceram com as mesmas características físicas. A única diferença, é que mudaram da água salgada, para a doce.

Apesar de seu corpo alongado que muito nos lembra uma enguia, esses dois peixes não são nem um pouco relacionados.

6-Peixe folha

A imagem mostra a vista lateral de três peixes-folha que se sobrepõem. O peixe em primeiro plano está expandindo sua boca como faz momentos antes de capturar sua presa.

Peixe-folha. Imagem de Joachim S. Müller via flickr

Diferentemente dos gigantes citados acima, os peixes-folha costumam medir apenas 8 cm. São peixes predadores altamente especializados em emboscadas. Seu tipo físico, sua coloração e até mesmo seu modo de nadar os permitem se camuflar com folhas que são levadas pela correnteza. Além disso, também são capazes de mudar levemente sua coloração – dessa forma, conseguem se aproximar de suas presas e engoli-las com sua boca expansiva em um quarto de segundo.

São encontrados na bacia amazônica onde habitam margens de rios e lagos e riachos. Geralmente vive em águas lentas ou essencialmente estagnadas em áreas com restos de plantas.


Leia mais em:

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