A inteligência das aves

É comum ouvirmos histórias ou vermos vídeos na internet de papagaios que sabem repetir várias palavras, pássaros fazendo pequenos truques e aves cantando, assobiando ou até mesmo dançando ao ritmo de músicas famosas. A verdade é que muitas descobertas sobre a inteligência dos pássaros foram feitas apenas recentemente e, por mais que alguns donos de aves já soubessem de algumas coisas que elas são capazes, muitas ainda não haviam sido comprovadas cientificamente.

Para muitas pessoas no entanto, as aves não parecem ser animais muito espertos, principalmente se pensarmos em pombos e galinhas por exemplo. Mas é um fato que até mesmo os pombos têm uma grande inteligência.

Os pombos possuem o melhor sentido de orientação dentre todos os animais, podendo localizar seus lares a mais de 1.000 km de distância. Existem várias pesquisas que sugerem como os pombos possuem essa habilidade – algumas indicam que podem se localizar sentindo o campo magnético da terra ou através da navegação olfativa, espacial e visual. Outra pesquisa também sugere que os pombos usam infrassom (ondas sonoras tão graves que os humanos não conseguem ouvir).

Pombo caminhando na grama

Pombo. Imagem de grendelkham via Flickr

As galinhas, no entanto, podem contar, mostrar certo nível de autoconsciência e até mesmo manipular umas às outras. Várias pesquisas sobre a inteligência das galinhas ainda estão em andamento – por exemplo, para saber se as galinhas têm empatia: caso as galinhas demonstrem empatia quando outras aves do grupo ou seus pintinhos estiverem em perigo, isso poderá levantar sérias questões sobre a forma como são criadas.

A percepção das galinhas como animais inconscientes e não inteligentes é motivada em parte pela motivação de rejeitar sua inteligência e sensibilidade pelo fato de nós as comermos. A incômoda verdade sobre as galinhas é que elas são muito mais avançadas do ponto de vista cognitivo do que muitas pessoas podem imaginar.

Mas diversos pássaros mostram diferentes tipos e níveis de inteligência. Alguns como os beija-flores conseguem lembrar de todos os locais onde há flores com néctar. Ou seja, eles não apenas saem voando até encontrarem uma flor e sim, memorizam onde estão.

Já o chapim-azul pode aprender com outros membros do bando a fazer coisas inéditas com grande facilidade. Por exemplo, em 1921, na Inglaterra, após um chapim-azul descobrir como abrir uma das garrafas de leite que eram entregues na porta dos residentes, vários casos de chapins-azuis fazendo o mesmo foram constatados em todo o país.

Chapim-azul comendo castanhas presas em uma rede

Chapim-azul comendo castanhas presas em uma rede. Imagem de Josefine S. via Flickr

Isso levantou a hipótese (posteriormente comprovada) de que são capazes de transmitir conhecimento. Em outro estudo, foi comprovado que os chapins consegue se lembrar de onde escondera(m sua comida por até seis meses, enquanto muitas pessoas não lembram o que comeram no dia anterior.

Outros estudos sugerem que os gaios – como o Aphelocoma californica – são capazes de planejar o futuro, o que até então era afirmado que somente os humanos seriam capazes. Outro comportamento notável destes pássaros é que eles se lembram o quê, como e onde guardaram sua comida e quais outros pássaros estavam por perto; assim eles podem vigiar seus estoques sem que outros pássaros os roubem.

Um clássico exemplo da inteligência das aves, são os psitaciformes, aves do grupo dos papagaios, cacatuas e periquitos. Alguns animais como golfinhos e morcegos são capazes de se comunicar verbalmente – mas os papagaios estão entre os poucos que conseguem espontaneamente imitar membros de outra espécies.

Papagaio-cinzento. A mesma espécie que o papagaio Alex, que foi um dos primeiros para estudar a inteligência das aves. Conseguia contar até seis e conhecia mais de 100 palavras para diferentes incluindo objetos, ações e cores

Papagaio-cinzento. A mesma espécie que o papagaio Alex, que foi um dos primeiros para estudar a inteligência das aves. Conseguia contar até seis e conhecia mais de 100 palavras para diferentes incluindo objetos, ações e cores. Imagem de Emily via Flickr

Isso acontece porque o cérebro dessas aves é estruturado de forma diferente das aves canoras e possuem áreas que são responsáveis pelo aprendizado vocal. Também foi sugerido que essas áreas mostram alguns padrões especiais que podem explicar por que alguns psitaciformes também são capazes de aprender a dançar, algo que nem mesmo nossos parentes chimpanzés são capazes.

Mas não podemos falar da inteligência das aves, sem falarmos da família de aves mais inteligentes que existem, os corvídeos. Fazem parte dessa família as gralhas, pegas, gaios e claro, os corvos.

Diferentes espécies possuem diferentes habilidades, e foi comprovado que os pegas-europeus, por exemplo, possuem autoconsciência – ou seja, reconhecem a si mesmos como indivíduos.

O cérebro dos corvos é proporcionalmente (considerando o tamanho do corpo e cérebro de cada indivíduo) igual à dos grandes macacos e cetáceos, e apenas ligeiramente menor do que o dos humanos. Sendo assim, são capazes de sentir empatia e emoções humanas como tristeza. Podem reconhecer expressões humanas, consentir baseados na vontade do grupo, se adaptar facilmente e reconhecer os membros do grupo por sexo, idade e dominância – além de atualizarem estas informações constantemente.

Uso de ferramentas

Durante muito tempo o uso de ferramentas era considerado uma característica exclusiva dos humanos, porém esse ponto de vista antropocêntrico vem sendo gradualmente desconstruído, já que o comportamento foi observado em vários animais, incluindo as aves.

O propósito de cada ferramenta pode variar dependendo da espécie e são normalmente usadas para alimentação, como isca ou para a manutenção corporal.

Alguns estudiosos, como o psicólogo comparativo Benjamin B. Beck, definem o uso de ferramenta como “um objeto usado como extensão do corpo”. Portanto, quando o abutre-do-egito joga pedras sobre ovos de avestruzes para conseguir quebrá-los facilmente, ou quando o socózinho usa iscas para poder capturar peixes – são exemplos, na verdade, de proto-tecnologia.

Abutre-do-egito jogando pedra em um ovo para quebrá-lo.

Abutre-do-egito jogando pedra em um ovo para quebrá-lo. Imagem de Maurice Koop via Flickr.

No entanto, outras aves realmente usam ferramentas como extensão do corpo. Há relatos de papagaios-do-mar segurando gravetos para se coçarem. O pica-pau-cinzento usa lascas de madeira como alavanca para levantar outros flocos da casca e alcançar os insetos escondidos. Araras-azuis usam galhos ou pedras para abrir nozes e as enrolam em folhas para mantê-las no lugar.

Os corvos da Nova Caledônia possuem mais habilidade do que os chimpanzés para produzir ferramentas. A fabricação envolve um processamento cerebral considerável e requer destreza notável. Além disso, também desenvolveram diferentes ferramentas e técnicas de fabricação em diferentes locais, provavelmente para atender às necessidades específicas da busca por comida.

Normalmente, usam os gravetos para “pescar” larvas e besouros de fendas nos troncos, tarefa que requer um enorme controle motor. Também podem executar tarefas de várias etapas para conseguirem alimentos, além de montar ferramentas, como juntar gravetos para fazer uma vara mais longa ou moldar ganchos em suas pontas, se assim for necessário.

Corvo da Nova Caledônia usando um graveto para pegar larvas

Corvo-da-nova-caledônia usando um graveto para pegar larvas. Imagem de Corvus moneduloides via Flickr.

De acordo com um estudo de 2012 da Universidade de Cambridge, em um teste de deslocamento de água, os corvos tiveram um desempenho que até então apenas crianças de 7 a 10 anos conseguiram completar com sucesso. Ou seja, em determinadas áreas, corvos podem ser tão inteligentes quanto crianças de 7 anos.

Cada espécie de pássaro tem seu destaque em alguma área da inteligência. É cientificamente comprovado que as aves podem contar, fazer planos, ter noção de probabilidade, sentir empatia, se localizar até melhor do que muitas pessoas, criar ferramentas, dançar e transmitir novos conhecimentos.

Além disso, várias aves são capazes de se adaptar para conseguir se alimentar ou fazer seus ninhos com materiais incomuns, porém mais práticos. Essa capacidade de adaptação é uma grande habilidade determinante se uma espécie poderá entrar em extinção ou não.

A grande variedade no tamanho do cérebro e nas habilidades cognitivas das aves, estão relacionadas com o tempo de desenvolvimento dos filhotes. Aves como as galinhas, que já nascem prontas para procurar alimento, costumam ter inteligência mais baixa. Da mesma forma, as aves migratórias possuem cérebros menores devido ao gasto de energia e o tempo de desenvolvimento que afetariam as viagens de longa distância.

Em contrapartida, pássaros criados em seus ninhos e alimentados por seus pais durante determinado tempo têm um período maior de desenvolvimento, o que faz com que sua inteligência seja mais alta.


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